quarta-feira, setembro 20, 2006

"A" - Uma série de acontecimentos inopinados

Primária e Grupos Paramilitares

Mais um post tão longo como egocêntrico, em que falarei mais um pouco sobre a minha vivência. Falarei de que por melhor que seja a nossa ideia, haverá sempre alguém que a roube e a vire contra nós, que há amigos que nunca deixarão de o ser por mais diferentes que sejam entre si, que sozinhos podemos valer muito, mas uma aliança vale muito mais e que nunca, mas nunca se deve confiar nas mulheres!
Sobreviver para contá-la!


A Grécia Antiga era formada por várias cidades estado. Atenas, Esparta, Tebas, Corintos (famosa pelas suas bolachas), são alguns exemplos. Apesar de partilharem a mesma cultura, a mesma religião e a mesma língua, elas passavam a maior parte do seu tempo a guerrear entre si. As guerras, eram apenas interrompidas durante os jogos Olímpicos, ou no caso de a própria Grécia estar a ser atacada por povos estrangeiros, aí, as várias cidades estado uniam-se para combater o inimigo comum.

É possível fazer um paralelismo perfeito entre a terra onde moro e a Grécia Antiga. FJZ (abreviatura do nome da minha freguesia) é dividida em vários lugares, à volta de uns 14. Eu, por exemplo, sou do lugar do Casal e como eu, havia mais 3 rapazes da minha idade a viver no mesmo lugar. Os outros Lugares tinham a sua própria fornada de cachopos, com idade igual ou aproximada à nossa.
O nosso lugar era o nosso território, havia uma espécie de código de protecção entre a pequenada de cada lugar, caso um fosse atacado, era enviada uma comitiva para tentar apurar a causa da agressão, se a justificação não fosse satisfatória (nunca era), era imediatamente declarada guerra entre os lugares envolvidos, e andava-se à porrada!
Estas guerras eram apenas suspensas em duas ocasiões: Quando crianças estranhas entravam em FJZ, aí a pequenada unia-se para dar porrada nos estrangeiros, normalmente atirando leivas ou pinhas, para eles saberem que não eram bem-vindos. Ou quando queríamos jogar futebol contra as outras turmas, aí éramos forçosamente obrigados a cooperar.

A hierarquia de compromisso era basicamente esta. A porrada entre Lugares, sobrepunha-se à porrada entre amigos, a porrada entre turmas, sobrepunha-se à porrada entre lugares, a porrada entre freguesias, sobrepunha-se à porrada entre turmas. Não era nada que estivesse escrito, mas toda a gente sabia que tinha de ser assim!

Os atritos entre Lugares tornaram-se mais evidentes na altura da primária, antes não se saía muito do nosso Lugar, os nossos amigos eram aqueles que viviam perto de nós e as ruas do Casal o nosso local de brincadeira. Quando começou a escola, deu-se o primeiro choque cultural, crianças dos vários lugares foram forçadas a conviver juntas naquilo que chamavam de Primeira Classe. O choque de ideias revelou-se demasiado grande para ser ultrapassado e a porrada era uma constante. Eu bem sabia, no meu primeiro dia de aulas, que aquilo não iria dar bom resultado, mas sobre o meu primeiro dia de aulas já falei noutro post.

No Casal decidimos elevar um pouco a nossa fasquia, proteger os nossos e o nosso Lugar não chegava, precisávamos de algo mais, por isso formamos um grupo para a porrada. Cada um de nós tinha um animal sagrado, uma técnica de combate especial - de acordo com o animal - tínhamos um código de honra e uma arma secreta, feita com o melhor arame que conseguimos roubar aos nossos pais, mas que mesmo assim era incapaz de infligir qualquer dor, pelo que era inútil, a não ser que acertássemos nos olhos. Tudo isto foi feito com base no que tínhamos visto em filmes de Ninjas, era impossível não resultar! Só nos faltava um nome, tinha que parecer maquiavélico e impor respeito, para que as pessoas fugissem só de o ouvir... Os Fortes das Trevas pareceu-nos a escolha certa.

Tínhamos revolucionado o sistema de guerra, estávamos organizados e tínhamos jurado protegermo-nos e quando somos crianças, faltar a uma promessa a um amigo, era coisa grave! Éramos o grupo mais forte, era impossível vencerem-nos, para além de estarmos organizados, os restantes lugares nunca tinham mais de 4 crianças, que andassem na mesma turma que nós, pelo que nunca estávamos em inferioridade numérica. Descansámos à sombra da Vitória, sem noção do que se passava nos bastidores da estratégia militar dos outros lugares.

O dia chegou em que, ao entrarmos na escola, fomos recebidos por algo novo, algo que nem nos nossos sonhos mais loucos poderíamos imaginar. Alguns lugares tinham-se aliado e criado um grupo semelhante ao nosso, mas com mais crianças, com novos animais sagrados e com armas mais inovadoras, como chicotes, lanças e armas de chumbos.

Ficará para sempre na infâmia, o dia em que o Casal se viu obrigado a render à aliança dos outros Lugares.

Rendemo-nos mas não desistimos, qual Alemanha após a primeira guerra, formamos um clube secreto para planear a recuperação da nossa hegemonia bélica. Fomos para a casa abandonada do Maneca, que ficava dentro da escola, para fabricar Bestas e Arcos, de uma maneira artesanal, recorrendo a caixas da fruta, ramos e elásticos. Mesmo sem conseguirmos convencer as nossas mães a deixar-nos levar uma vassoura para a escola, arrumamos aquilo como pudemos, até que apareceram umas amigas nossas com vassouras, que nos ofereceram a sua ajuda. Nós aceitamos, inconscientes do seu plano maquiavélico.

No dia seguinte já tínhamos um clube, ainda não tínhamos um nome, mas pouco interessava, era nosso e íamos para lá planear e beber o leite achocolatado, na hora do lanche.
Logo nesse dia começamos a ouvir rumores, de que as raparigas que nos tinham ajudado, também faziam parte do clube, o que era impossível!! Segundo o que diziam, elas tinham o direito de usar o clube, porque nos tinham ajudado a limpar. Nós achámos aquilo tudo muito injusto e como nos tinham ensinado que não podíamos bater nas meninas, tivemos que levar aquilo à entidade suprema da escola... a Empregada da Limpeza! Ela disse-nos que tínhamos de partilhar o clube com as meninas, porque elas realmente nos tinham ajudado... tivemos que aceitar e desde que continuássemos a ter o nosso sítio, estava tudo bem! Mas mal sabíamos que o pior estava para vir.
Depois desta pequena vitória, as meninas acharam-se no direito de dar um nome ao clube... O Clube das Pombinhas! Aí foi a nossa morte, nunca mais pudemos lá entrar, o clube estava para sempre conspurcado por aquele topónimo efeminado. Lá, nunca mais conseguiríamos organizar a vingança! Ainda tentamos ir para a outra divisão abandonada, mas já tinha sido usurpada pelos nossos rivais, os mesmo que se tinham aliado e roubado a nossa ideia organizacional, foi o nosso fim como potência FJZense ...ou talvez não.

Recentemente voltamos às guerras entre lugares, mas agora têm outro nome, Torneio de Futebol Inter-Lugares de FJZ. Isto resulta em uma semana de intensos desafios de futebol salão e numa desculpa para dar caneladas ao pessoal da terra. Este ano voltou-se a repetir em Agosto, só pude comparecer ao primeiro jogo, mas o Casal jogou bem, foi à final e ganhou, e pelo que me disseram, ainda deu tempo para um minuto de silêncio pelo meu avô, obrigado amigos :)

6 comentários:

d disse...

É bem!

pt disse...

Bonita história. Não haja dúvida.

A disse...

devido ao vosso historial informático (e também meu), acho que só ficava bem clarificarem os vossos comentários com tags do género: <sarcasmo> </sarcasmo> :p

A disse...

poucos devem ter sido aqueles que leram isto até ao fim... os meu parabéns a quem conseguiu!

o próximo episodio chamar-se-á: jovens máchicos e jogos simplesmente horroróicos

;)

d disse...

E sangue, há?

Josue disse...

Epá, isto nos filmes do Michael Dudikoff nunca era assim, que coisa maquiavélica! O ninja americano nunca andaria num clube das pombinhas, fizeram bem em não por lá mais os pés. Seria o que o Chuck Norris e o Michael Dudikoff fariam.