Mais um extenso episódio da saga “A”, tenham paciência, no final terão, o que julgo ser, uma agradável surpresa. Caso não tenham paciência, podem saltar logo para o final do post e ver a surpresa, mas fiquem sabendo que eu vou achar que não a merecem! ...espero que consigam viver com isso.
Nenhuma mulher consegue ter o lugar que a nossa mãe tem nas nossas vidas. Nenhuma teve tanta influência no nosso desenvolvimento, e por conseguinte obteve o nosso respeito e um lugar de destaque no nosso coração.
...bem, talvez haja uma mulher que chegue lá perto para as crianças da década de 80. Alguém que nos ensinou, melhor que ninguém, as agruras da vida, a dificuldade da escolha, o desconsolo da derrota, e o ensinamento vital de que não podemos ter tudo... temos de fazer escolhas!
Com certeza que já perceberam que estou a falar da Vera Roquete, figura quase materna da minha infância, e o seu único programa “Agora Escolha”, que me entretinha entre chegar da escola e ir jantar, não deixando disponibilidade para os deveres, devido à hiperactividade induzida pelos desenhos animados. O que não sabíamos na altura é que ela nos preparava, de uma maneira imperceptível, para as difíceis escolhas com que nos íamos deparar numa futura vida adulta, através de um simples esquema de ‘Bloco A’, ‘Bloco B’.
Poderíamos considerar quase cruel, chocar séries como “Os Soldados da Fortuna” (por favor parem de lhes chamar Esquadrão Classe A), “Macgyver”, “O Justiceiro”, “Kung Fu”, “Missão Impossível”, “Manimal”, “O Homem Invisível”, “Os Vingadores”* e outras que já não me lembro, e obrigar-nos a escolher! Como todas as crianças, eu era petulante, eu queria ver as duas séries, queria ver o Justiceiro e os Vingadores, queria tudo! Mas isso era um opção que não existia, tínhamos de escolher (no meu caso só rezar, porque os meus pais não me deixavam gastar o telefone nestas coisas). Era meia hora de angústia, a ver o A e o B, numa luta desenfreada!
Mas isto apenas ensinava que não podíamos ter o melhor de dois mundos, e ai a Vera Roquete decidiu dar-nos outra lição, desta vez sobre desilusão. Porque, mal por mal, via-se sempre uma série que se gostava, não havia tristeza. Foi ai que apareceu “O Barco do Amor”, cujo único propósito era mostrar que o mundo era mau e estava cheio de crianças parvas, que escolhiam aquela série! Mas ainda hoje duvido que essa série tivesse algum dia recebido telefonemas da pequenada, para mim era passada, independentemente das escolhas da petizada que via o Agora Escolha, só para nos mostrar que nem sempre o mundo escolhe o que é melhor para nós.
Costumasse dizer que é melhor a espera, do que a recompensa e mais uma vez, a Vera Roquete era impecável a mostrar-nos esse lado da vida. É verdade que eram momentos angustiantes, enquanto se esperava por uma das séries, mas essa meia hora era preenchida com o melhor do Agora Escolha, os desenhos animados! O Bocas, Tom Sawyer, Esquilo Puchi (quando ainda não se chamava Bana e Flapi), Ana dos cabelos Ruivos, Fábulas da Floresta Verde, Os 3 Mosqueteiros (aquele em que o Aramis era uma gaja), a Volta ao Mundo em 80 dias do Willie Fog, Bia a pequena Feiticeira, Os Caça Fantasmas (que passava uma musica espectacular quando o Pete era bonzinho), He-Man, She-Ra, Dartacão, ThunderCats, Capitão Planeta, Super Rato (que tinha de ir ao Super Mercado, comer Super Queijo, para ficar Super), Cavaleiros do Zodíaco, uns desenhos animados manhosos em que uma vez a história era de um senhor que tinha uma cidade na cabeça, Era uma vez…, Ferdy a formiga, Denver o último Dinossauro, David o Gnomo, Família Robinson, Alice no País das Maravilhas, Tartaruga Touchet, Pepe Rápido e o Babalu, Transformers, os Ursinhos Carinhosos, Babar, Conde Pátula, etc. Bem sei que estas séries não davam todas no Agora Escolha, mas entusiasmei-me
Depois do Agora Escolha começou o desvirtuamento da programação infantil, passando do sistema educativo do Agora Escolha, para a demência de cenários irreais, como o do Sótão da Paula, em que quando a menina chegava a casa da escola, ia dar a comer cassetes de desenhos animados ao Mimix, robô extraterrestre que morava no sótão. Depois disto, os Morangos com Açúcar eram inevitáveis
O Agora Escolha, mais que um programa televisivo foi uma escola que me preparou para a vida adulta, e a Vera Roquete a sua mentora.
*Os Vingadores mereciam um post só para eles, não me lembro de uma série me ter marcado tanto como esta. É provavelmente a melhor série que vi até hoje!


